A lição dos queixadas

Personagens de uma greve que durou de 1962 até 1969 contam por que essa batalha, 50 anos depois, ainda está forte na memória da comunidade

por Cida de Oliveira, da Revista do Brasil

Os piquetes lembravam os de outras greves. A diferença é que mais de 200 policiais estavam dentro da fábrica desde as 3h da madrugada, a pedido do patrão. Quem estava lá teve de sair. E quem chegava não entrava. O movimento, marcado para começar às 6h de 14 de maio de 1962 caso as reivindicações não fossem atendidas, foi diferente também porque se prolongaria por sete anos e quatro meses, provavelmente um caso único no mundo.

Foi assim que cruzaram os braços todos os 1.400 trabalhadores na fábrica de cimento localizada em Perus, no noroeste da capital paulista, e nas pedreiras de calcário situadas a 20 quilômetros dali, no município de Cajamar. Eles reivindicavam o pagamento de salários atrasados, o cumprimento de acordos coletivos, reajuste e pagamento da verba para casa própria no período entre outubro de 1960 e maio de 1962. Pela primeira vez, desde 1951, foi desligado todo o maquinário obsoleto, desgastado e barulhento – o que não acontecia nem para manutenção.

Durante 99 dias, tudo parou naquela que foi a maior fábrica de cimento da América Latina e fornecedora do produto para a construção dos primeiros edifícios de São Paulo, viadutos, pontes, estradas, estádios e até da capital federal. O aposentado Sebastião de Souza Silva, 79 anos, mais conhecido como Tião de Perus, lembra-se bem daqueles dias. Admitido como motorista pouco tempo antes, ele relata que a paralisação incluía trabalhadores de três outras empresas do patrão José João Abdalla, o poderoso J.J. Abdalla, dono de um complexo industrial, bancário, agropecuário e latifundiário, influente na política e famoso por comprar fábricas para explorar até que não dessem mais lucro. Deputado estadual e federal, foi secretário do Trabalho do governador Ademar de Barros entre 1950 e 1951.

(Foto: Arquivo Edgard Leuernroth - UNICAMP)

A Companhia Brasileira de Cimento Portland Perus (CBCPP) foi inaugurada por um consórcio formado por empresários canadenses e brasileiros em 1926, quando ainda não havia leis para garantir direitos trabalhistas, apenas decretos específicos sobre limite de idade e jornada noturna. Até a década de 1940 atendia à metade da demanda nacional. Em 1951 o empresário J.J. Abdalla comprou a fábrica, a pedreira e a estrada de ferro Perus-Pirapora.

“Nos primeiros 99 dias parou tudo, mas no centésimo houve uma operação fura-greve. Muitos voltaram ao serviço. Eu, não”, conta Tião. Segundo ele, havia a interferência da deputada estadual Conceição da Costa Neves, que estava sempre no bairro para convencer os operários a retornar ao trabalho. Ia à casa de muitos, acompanhada pela polícia, e até os convidava para reunião com Abdalla. Os acordos assinados em separado pelos operários das outras empresas – o que Tião chama de traição – favoreceu a operação fura-greve.

Filho de trabalhador da fábrica, o historiador Elcio Siqueira, que estudou o episódio para seu mestrado e doutorado pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), conta que em 21 de agosto, data da operação, houve intervenção policial e os agentes do Departamento de Ordem Política e Social (Dops) iam atrás dos grevistas em casa. Houve inclusive ocupação militar em Perus e Cajamar. “Dos 1.100 grevistas, 700 ‘indesejáveis’ foram impedidos pelo patrão de retornar, o que os levou a uma resistência épica”, afirma.

Ao longo daquele ano foram feitas várias passeatas no bairro e no centro de São Paulo, além de greves de fome na frente da residência oficial do governador Carvalho Pinto. Sem acordo, em janeiro de 1963 o Sindicato dos Queixadas, como era conhecido, entrou com ação para reintegrar os trabalhadores. Abdalla negou, com a justificativa de abandono de emprego. E ainda quis despejá-los das vilas operárias, mandando inclusive cortar água e luz nas casas.

(Foto: Arquivo Edgard Leuernroth - UNICAMP e Museu Municipal Casa da Memória de Cajamar)

Houve resistência e nova ação na Justiça. Os dirigentes sindicais recomendaram então aos grevistas tirar nova Carteira de Trabalho e procurar outro emprego enquanto os processos tramitassem na Justiça. “Meu pai, que era carpinteiro, foi trabalhar na construção de mansões no litoral. Muitos colegas dele se empregaram em grandes construtoras. Tinha muito queixada construindo estádio”, lembra Sidnei Fernandes Cruz, ex-queixada e atual presidente do sindicato em Perus.

Com o golpe de 1964, a entidade foi uma das primeiras a sofrer intervenção, tendo dirigentes presos ou respondendo a processos. Uma nova diretoria foi eleita, formada por aqueles que tinham furado a greve – os quais, ironicamente, comandariam uma paralisação fracassada em 1965.

Solidariedade

(Foto:Danilo Ramos/RBA)

Ao longo dos sete anos, os grevistas fizeram campanhas e receberam apoio de organizações. Entre 1962 e 1963, diversos setores, como professores e estudantes de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), iam a Perus atender os grevistas e seus familiares. E os acadêmicos do Direito passaram a defender a encampação da fábrica para cogestão operária. Na falta dos salários dos maridos, as mulheres organizaram uma cooperativa de costura. Como lembra Tião, eles se encontravam com frequência para acompanhar os desdobramentos, participar de assembleias e viagens em busca de sustento e apoio para o movimento. “Enquanto isso, dentro da fábrica, as jornadas eram intermináveis para manter a produção, com muitos operários chegando a morrer de exaustão”, lembra o aposentado.

A retomada da produção logo depois da greve, com a substituição de operários, demonstra a simplicidade das rotinas grosseiras e penosas. “A política de rebaixamento da qualidade dos serviços de manutenção estava associada a um padrão bárbaro de operação pela administração Abdalla”, aponta Elcio. As condições de trabalho eram tão ruins que muitos adoeciam e morriam. A exposição à poeira causava silicose, grave doença pulmonar, que pode avançar para o câncer, como aconteceu com o pai de Elcio Siqueira e pode ter ocorrido com o pai de Sidnei Fernandes Cruz.

Exaustão. Tião lembra o tempo em que peregrinavam em busca de sustento e apoio para o movimento enquanto, na fábrica, operários morriam de tanto trabalhar (Foto:Gerardo Lazzari/RBA)

Com a simpatia da opinião pública, que acompanhava os desdobramentos da greve, o sindicato percebeu o espaço para denunciar Abdalla também como corrupto. Em 1966, com a queda de Ademar de Barros – que havia retornado em 1963, no lugar de Carvalho Pinto –, acabou a perseguição policial aos trabalhadores.

A admiração por aqueles operários, conforme pesquisadores, se devia principalmente à sua forma de luta, baseada na não violência ativa, que mais tarde seria chamada Firmeza Permanente. Preconizada por Mário Carvalho de Jesus, advogado do sindicato, consistia em resistir sem aceitar nenhuma provocação da polícia.

A postura combinava ideias do indiano Mahatma Gandhi (1869-1948) e do dominicano padre Lebret (1897-1966), teólogo francês que aproximou pensamento cristão e ação econômica para uma sociedade mais justa. Tal comportamento lembrava o dos queixadas, porcos selvagens que só reagem ao agressor quando reunidos em manada – daí o apelido dos operários e de seu sindicato.

O Sindicato dos Queixadas chegou a associar 99% dos trabalhadores. Outro traço peculiar era a solidariedade a outros movimentos, como os da Rhodia, da Fiação e Tecelagem Santo André e da Usina Miranda. Mais tarde, na época das grandes greves do ABC paulista, os queixadas denunciaram à Organização Internacional do Trabalho (OIT) a repressão àqueles sindicatos.

Só em 1967 o governo estadual reconheceu o direito de greve dos 400 trabalhadores estáveis, que foram reintegrados dois anos depois. A fábrica teria de pagar os salários correspondentes aos sete anos. A luta continuou com denúncias de fraudes contra Abdalla e a reivindicação da cogestão da fábrica. A greve foi considerada legal apenas em 1975, quando o governo federal pagou os salários referentes aos 2.448 dias de paralisação e interveio na fábrica.

Naquele ano, houve grandes passeatas em Perus contra a poluição, todas apoiadas pela Igreja Católica e reprimidas pelo Dops, que usou o episódio como pretexto para expulsar missionários estrangeiros. Em 1974, os trabalhadores exigiram o confisco total dos bens de Abdalla, o pagamento dos salários atrasados e a instalação de filtros nas chaminés. Logo surgiram movimentos pelo fechamento da fábrica e por medidas de compensação à população por tanto sofrimento com a poeira.

Ideal presente

Em 1979, uma área confiscada pela União foi transferida à prefeitura paulistana e transformada no Parque Anhanguera, quase 20 vezes maior que o Ibirapuera. Em 1983, quando J.J. Abdalla já estava afastado da gestão (ele morreria cinco anos depois), seu sobrinho Antonio João Abdalla Filho, o multimilionário e playboy Toninho Abdalla, desativou a estrada de ferro e as minas de calcário. Agonizante, a fábrica foi fechada em 1987.

Para Elcio Siqueira, a paralisação de 1962, que a princípio era moderada, limitada a aspectos trabalhistas, radicalizou-se com o tempo. “Os trabalhadores lançaram a proposta de desapropriação da fábrica, que devia muitos impostos, e sua cogestão pelos operários”, diz.

Para o governo Carvalho Pinto, a fábrica era inviável e o estado temia abrir um precedente: encampar uma fábrica toda vez que trabalhadores e patrões não se entendessem. Para Sidnei Fernandes Cruz, a desapropriação não ocorreu por pressões do cartel do cimento. “A medida permitiria a oferta de cimento a preços inferiores aos dos outros fabricantes.”

Após 50 anos do começo da greve, o ideal daqueles operários ainda move toda a comunidade. Só que, em vez da defesa de direitos trabalhistas, envolve a construção de uma universidade pública e de um centro de cultura operária no terreno tombado, onde as ruínas da antiga fábrica resistem às tentativas de depredação. Já existe lei para isso. O que falta é a desapropriação do terreno, que está na mira da especulação imobiliária.

O grupo Abdalla quer transformar o espaço em um shopping center ou condomínio residencial. Já o Ministério da Educação planeja construir ali um campus do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de São Paulo. Apesar de bem-vindo, está longe do campus defendido pelo movimento Pró-Universidade Pública da Zona Noroeste. “Queremos uma universidade popular capaz de socializar o conhecimento acadêmico com a comunidade e dialogar com os saberes locais”, diz Marcos Manoel dos Santos, professor e militante do movimento.

 Euler, durante aula aberta na comunidade Quilombaque: a antiga fábrica é a memória do trabalho e da construção da cidade (Foto:Danilo Ramos/RBA)

A luta conta ainda com o professor Euler Sandeville Júnior, da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da USP. Seu interesse pelo significado da fábrica o fez levar para o bairro parte do projeto chamado Poéticas e Conflitos na Paisagem. Todo sábado, na comunidade cultural Quilombaque, alunos da graduação assistem a uma aula aberta também ao público. ”A fábrica é o resgate de uma memória do trabalho, dos próprios meios de produção do espaço urbano e de uma fase importante da construção da cidade”, define o professor, que acredita no potencial educativo e cultural do espaço.

Para muitos, a greve dos queixadas foi uma derrota em especial para os trabalhadores que não tinham estabilidade e deixou lembranças amargas entre aqueles que não concordavam com os rumos que tomou. “Havia quem quisesse apenas o atendimento da pauta de reivindicação, sem apelar para uma batalha tão claramente contrária à ordem burguesa”, diz Elcio. Tião de Perus, que não tinha estabilidade no emprego, pensa diferente. “Não fracassamos. O movimento nos ensinou muitas coisas, como a solidariedade.”

Fonte: Rede Brasil Atual 

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Publicado em novembro 27, 2013, em Uncategorized. Adicione o link aos favoritos. 1 comentário.

  1. Meu pai também foi um Queixada. Minha maior alegria será o dia em que eu ver um Centro Cultural e um Museu do Trabalhador na antiga fábrica. De onde ele está creio que também ficará muito feliz.

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