Leia o livro “Queixadas – por trás dos sete anos de greve”

Diariamente, mais de 391 mil pessoas transitam pela Linha 7-Rubi, da CPTM, que faz o percurso da Luz até Jundiaí. São milhares de histórias que, a todo tempo, se cruzam pelos trilhos do trem. E quem passa entre as estações de Perus e Caieiras, com certeza já avistou, pelo menos, a silhueta de um grande prédio. As chaminés denunciam que ali, um dia, funcionou uma fábrica.  São as mesmas chaminés por onde saiam, diariamente, uma fumaça turva, carregada de pó de cimento, que se depositava nos telhados dos moradores.

Arte do Livro Queixadas/ Créditos: Carlos Marinho da Silva (CMS

Arte do Livro Queixadas/ Créditos: Carlos Marinho da Silva (CMS

Do trem, olhos curiosos ficam inquietos, até avistarem no alto de quatro grandes cilindros, o letreiro já enferrujado, trazendo as letras garrafais CIMENTO PERUS. Ao lado, a grama espessa não deixa negar, a força do tempo pairou por ali e ali permaneceu. De fora, vê-se, ainda, as vagonetas de carga, amassadas, abandonadas à ferrugem, imersas pelo mato que as rodeia. A maria-fumaça que as guiava não se enxerga, fica no imaginário, assim como as estruturas disformes de ferro que circundam aquele velho prédio.

Ali, não se ouve mais marretadas. Não se ouve mais máquinas. Não se ouve mais homens. Não há mais homens. Só silêncio. Logo na entrada, a maria-fumaça da vagoneta avistada ainda de fora, é encontrada. Depois, um cemitério de máquinas é formado sob os olhos mergulhados em tons de cinza. As únicas cores que imergem daquelas paredes amarelas são dos grafites e pichações. Por ora, trazem o colorido de uma borboleta, por ora, a tristeza de frases suicidas. As grades de concreto remetem ao ambiente de uma prisão, deixando o clima ainda mais pesado.

Mais acima, entre o chão de taco apodrecido e o teto caindo, também cresce o mato, que alcança até as construções mais altas daquele prédio. Os buracos fundos, as escadas se despedaçando e as muitas entradas compõem o cenário daquele extenso labirinto: a Companhia de Cimento Portland Perus.

Foi ali que se deu uma greve que durou sete anos, liderada por um grupo sindical que se autodenominava queixadas, pois assim como o porco do mato de mesmo nome, uniam-se para, juntos, enfrentarem o perigo iminente.

Esses detalhes ainda estão guardados na memória de Sidnei Cruz, Arlindo Paes, Elias Aoun, Genésio de Simone, Sebastião Silva, Aroldo dos Santos, Maria Gastalho, Olga Gastalho, Olinda de Souza, Ramiro dos Santos, Aparecida Pedroso e Dair Gonçalves.

Juntar todas essas pessoas, a maioria com mais de sessenta anos, foi também grande desafio. Alguns, sequer se conheciam, tampouco sabiam que tinham um passado em comum. Seja olhando um nos olhos dos outros, ou sabendo o sobrenome da família, as lembranças logo começaram a rememorar nas falas de todos eles.

Ramiro dos Santos, 84 anos, aposentou-se trabalhando na Fábrica de Cimento, em 1986, no mesmo ano de seu fechamento. Nascido na Vila Triângulo, construída pela indústria para abrigar os operários, Ramiro acompanhou, praticamente, o início, o meio e o fim da Perus. Trabalhou doze anos, ficou sete anos de greve, voltou após a paralisação e lá mesmo se aposentou. Foi queixada.

Irmão mais novo de Ramiro, Aroldo dos Santos, 73 anos, é um senhor de estatura baixa e corpo magro. Aposentou-se trabalhando no almoxarifado da Prefeitura de São Paulo. Morador de Perus desde que nasceu, o senhor de óculos de aro prata com ponta de couro é do tipo calado, até se sentir à vontade. Quem o vê, agora, não imagina que também é um queixada.

Aroldo, ao olhar para os filhos e viúva de seus companheiros, não reconheceu ninguém. Nem passou por sua cabeça que aquela moça loira de olhos azuis fosse a filha de um dos seus grandes amigos da fábrica. Mas quando soube, olhava pra ela e não hesitava em dizer “Quando vejo você aí na porta, nossa, lembro direitinho do seu pai!”.

A moça a qual ele se refere é Olga Gastalho, de 42 anos, é a filha mais nova do já falecido queixada, Antônio Gastalho – o padeiro – e de Maria Gastalho, a senhora de 70 anos. Fruto do casamento que se consumou durante os anos da Greve de Sete anos, Olga, agora, procura resgatar a memória da família, da qual, mesmo sem saber, faz parte Arlindo.

Arlindo Paes, 62 anos, é primo de segundo grau de Olga Gastalho, que antes do encontro só conhecia por meio do facebook. Sua mãe abrigou Maria, quando esta chegou a São Paulo, e seu avô Benedito a apresentou ao seu já falecido marido. Metalúrgico aposentado, Arlindo acompanhou a greve quando, ainda, era um menino. Ao lado do pai Orlando Paes, que foi queixada, tomou gosto por movimentos sociais. Quando trabalhava, se negava a furar uma greve, até mesmo quando assumiu a chefia de seu setor. “Meu pai era queixada, vou entrar e furar a greve? Vou nada!”.

Sidnei Cruz, 63 anos, também herdou a veia sindical do pai, Sebastião Cruz – o Tião Carpinteiro -, um dos líderes do movimento dos Queixadas. Acompanhou de perto todas as greves. Desde o menino de oito anos, participando das reuniões junto ao pai, até assumir a presidência do Sindicato do Cimento, Cal e Gesso de São Paulo, na década de oitenta, cargo que ocupa até hoje. Por sua habilidade de negociação e perspicácia, o queixada é conhecido entre sindicalistas como o Raposão.

Ao lado da sala de Sidnei no Sindicato, trabalha Sebastião da Silva – o Tião Silva, 79 anos. Após ver pai e irmãos trabalhando na fábrica, teve, desde que nasceu, sua história se cruzando à da fábrica. Foi lá que o queixada aprendeu o conceito da firmeza-permanente, ideologia que guiou os sindicalistas da fábrica na luta por seus direitos. Hoje, lidera no Sindicato a Associação dos Aposentados de Perus, que procura dar vazão à história dos queixadas.

Aparecida Pedroso, 60 anos e Dair Gonçalves, 70 anos, além da vizinhança, dividem a mesma história, ambas são filhas de queixadas. As duas recordam, com saudosismo, do tempo que levavam marmita a seus pais e adentravam as dependências da fábrica. Dair, hoje, é professora aposentada e mora no mesmo local onde o pai construiu a primeira casa de tijolos da família, com indenização que recebeu dos sete anos de greve.  Aparecida Pedroso, hoje faz parte dos movimentos da Igreja Católica, assim como seu pai e boa parte dos queixadas.

Tão católica quanto Aparecida, Dona Olinda de Souza, 77 anos, é viúva de Anastácio de Souza[1]. A senhora, com as fotos do marido em mãos, tem como principal lembrança da greve as dificuldades que passou. Foi queixada, ao lado do marido, mas, depois, se arrependeu, principalmente por ver os filhos passarem vontades que não podia suprir.

Tempos difíceis compartilhados por Genésio de Simone, filho de queixada, que também trabalhou na fábrica nos anos setenta. O pai, assim como Aroldo e Tião, também não recebeu nada pela greve. Foi trabalhar como caseiro de um dos comerciantes locais, Seu Elias Aoun, local em que Genésio trabalha na mesma função até hoje.

Elias Aoun, de 86 anos, ex-comerciante da época da greve de sete anos, é uma testemunha ocular dos episódios. Acompanhou de longe, toda a luta queixada. Em princípio, acreditava ser uma grande loucura. Hoje, reconhece o heroísmo desses homens e sua importância para a existência de muitos dos direitos trabalhistas conquistados.

Experiências estas que, a todo momento, cruzavam-se por nossos ouvidos, impossibilitando-nos de anotar. Restando-nos gravar e sentir cada palavra dita. Mas, o mais importante daqueles encontros pode ser relatado. Pois isso não estava apenas nas falas dos gravadores, tampouco nos livros e documentos pertencentes a alguns deles. Estava também no semblante de cada um, olhando um para o outro. Reconhecendo não apenas as pessoas que estavam à frente, mas o passado em comum que, até hoje, os circunda e une.


[1] Os nomes Olinda e Anastácio não correspondem aos personagens reais. Foram alterados a pedido da entrevista, que deseja preservar sua identidade.

Acesse aqui o Livro Queixadas – por trás dos 7 anos de greve, escrito por Jéssica Moreira e Larissa Gould.

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Publicado em dezembro 16, 2013, em Uncategorized e marcado como , , , . Adicione o link aos favoritos. 2 Comentários.

  1. jose carlos puppo

    Eu adorei o livro ficou muito bom estão de parabéns as duas e mais todos os companheiros que ajudaram muito bom gostei muito o meu pai participou ele e o Sr. Alcides Puppo

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