Portal Aprendiz: Cultura e Educação no chão de fábrica

por Danilo Mekari

A Fábrica de Cimento de Perus, localizada na zona noroeste de São Paulo, foi pioneira na produção em grande escala no Brasil e forneceu material para a reurbanização do Vale do Anhangabaú, no fim dos anos 1930, e para a construção de Brasília, na década de 50. Foi também palco de simbólicas greves em plena ditadura militar, quando mais de mil operários paralisaram as máquinas e reivindicaram melhores condições de trabalho e pagamento de salários atrasados.

Hoje, 87 anos após a inauguração, o local onde um dia funcionou a maior indústria de cimento da América Latina é o centro de um impasse entre moradores da região e proprietários do terreno.

A Fábrica forneceu material para a reurbanização do Vale do Anhangabaú e para a construção de Brasília.

Fechada desde 1986, a Fábrica foi tombada como patrimônio público da cidade, porém o abandono da área gerou propostas um tanto distintas para a sua utilização: de um lado, o projeto de erguer muros e construir um centro de compras e um condomínio residencial; de outro, a ideia de transformar o local em um Centro de Lazer, Cultura e Memória do Trabalhador, que abrigaria ainda uma Universidade Livre e Colaborativa.

“Olhar o esqueleto da Fábrica dá um desgosto enorme. Gostaríamos de ver um polo cultural que resgate a história dos trabalhadores que passaram por ali”, revela Olga Gastalho, filha caçula do queixada Antonio Joaquim. Ela guarda o capacete que era utilizado diariamente pelo pai – além de um emblema da Fábrica – e promete doar para um futuro “Museu dos Queixadas”.

Olga acredita que, por ser um marco na conquista dos direitos trabalhistas em todo o país, a memória desses operários grevistas não pode ser esquecida. “Seria uma chance de recuperar a história de trabalho, luta e superação que está na alma do bairro de Perus”, afirma.

Educação patrimonial

A diretora da EMEF Cândido Portinari, Regina Bortoto, acredita na importância de ensinar a história da comunidade desde cedo. A escola já organizou visitas e peregrinação pelas ruínas da Fábrica, aulas públicas naquele que era o portão principal, além de um livro com crônicas sobre o local produzido pelos estudantes.

É o que ela chama de “educação por meio do patrimônio”. “Trabalhamos numa perspectiva de trazer o conhecimento local e usá-lo no aprendizado do aluno. E dentro da Fábrica existe um universo de saberes, desde a industrialização da cidade até as greves laborais”, observa Regina.

Para ela, apresentar elementos palpáveis e simbolicamente importantes para essas crianças facilita o processo de aprendizagem e fortalece os vínculos entre os alunos. “Dessa maneira, é possível mostrar de forma crítica o lugar onde eles vivem”, diz.

Em setembro, a diretora e outros 37 docentes participaram do curso de formação Memória e história de Perus: o saber local e a prática em sala de aula. “Os professores são multiplicadores e replicam esse tema na escola. Afinal, eles têm em sua própria história a marca da Fábrica”, explica Márcio Bezerra, gestor do CEU Perus.

Desapropriação

Os movimentos sociais e artísticos da região que reivindicam a desapropriação, conservação e uso público da Fábrica estão aguardando resposta da CONDEPHAAT (Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico) acerca do pedido. “Retomamos o diálogo este ano, com a gestão de Fernando Haddad (PT), através do secretário de relações governamentais, João Antonio da Silva Filho. Mas ainda não obtivemos resposta”, afirma Bezerra.

Além da formação, o CEU também abriu as portas para duas peças de teatro que abordam a trajetória da Fábrica. “É como no ditado que diz: o povo que não preserva a sua história jamais será livre. Precisamos de um centro cultural voltado ao trabalhador, onde ele se reconheça participando não só da história de Perus, mas também do Brasil”, ressalta.

Teatro e cultura

Grupo Pandora de Teatro apresentou, ao longo de 2013, o espetáculo “Relicário de Concreto”, inspirado nas memórias dos trabalhadores da Fábrica e na greve dos Queixadas. “O papel da comunidade cultural é resgatar a história da região. Temos esperança de recuperar o espaço da Fábrica, que já teve o primeiro ponto de lazer do bairro”, diz Rodolfo Vetore, integrante da companhia.
Ele acredita que o centro cultural e a universidade livre, além de criar espaços de lazer e conhecimento na região, fariam com que “a cidade de São Paulo conhecesse melhor a história de um de seus bairros”.
Queixadas

Queixadas é o apelido dado aos operários grevistas que, em 1958, resistiram a 46 dias de paralisação e conquistaram reajuste salarial de 40%. O nome é uma alusão a uma espécie de porco selvagem, que quando se sente em perigo, se une em grupo e bate o queixo, enfrentando os predadores. Esse episódio marcou a primeira geração de queixadas da Fábrica, já que outras mobilizações de trabalhadores se seguiram. A mais conhecida durou sete anos e se prolongou durante a ditadura militar.Clique aqui para ler o livro Queixadas – por trás dos sete anos de greve.

Fonte: Portal Aprendiz

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Publicado em dezembro 19, 2013, em Uncategorized e marcado como , , . Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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