Em agosto, Ato Artístico Cimento Perus mobilizou população com muita arte e cultura

por Jéssica Moreira

De 24 a 29 de agosto, os moradores de Perus viveram uma semana diferente. O Ato Coletivo Artístico Cimento Perus, organizado pelo Grupo Pandora de Teatro, em parceria com o CEU Perus e Movimento pela Reapropriação da Fábrica de Cimento de Perus trouxe para o bairro atrações que foram de teatro a cinema; de aulas públicas a audiências sobre o planejamento urbano; de filmes a concertos, com direito a orquestra até mesmo a sinfônica.

Ato Artístico Cimento PerusCréditos: Arthur Gazeta

Créditos: Arthur Gazeta

Tombada como patrimônio histórico da cidade de São Paulo desde 1992, a Fábrica de Cimento de Perus – primeira do setor no Brasil – continua sofrendo a deterioração, degradação e abandono. Mas os movimentos sociais da região não se cansam e, há mais de trinta anos, lutam pela desapropriação e construção de um Centro de Cultura e Memória do Trabalhador e uma Universidade Livre e Colaborativa no local.

 

O Ato de 2015, assim como os outros três que aconteceram nos anos anteriores desde 2012, vêm para fortalecer a luta de diversos coletivos e moradores de Perus que acreditam na ideia de revitalização e reapropriação do espaço. “O evento teve como objetivo reconhecer os espaços públicos e os coletivos culturais independentes já existentes nobairro e ressaltar a importância da revitalização da fábrica como um espaço para a comunidade, resgate da história e produção da cultura local”, aponta Lucas Vitorino, diretor do Grupo Pandora de Teatro.

Estudantes da rede pública de Perus realizam perguntas sobre a Fábrica de Cimento/Foto: Kallu Whitakr

Estudantes da rede pública de Perus realizam perguntas sobre a Fábrica de Cimento/Foto: Kallu Whitakr

Memória

E foi exatamente isso que aconteceu nos três bate-papos que aconteceram na Biblioteca Municipal Padre José de Anchieta, quando o Seu Tião Silva, ex-operário e sindicalista Queixada da Fábrica, Mário Bortotto e José Queiroz conversaram com os estudantes do bairro. Os olhos se espantavam de orgulho, as perguntas eram diversas e o objetivo passara história da primeira indústria do Brasil adiante realmente foi cumprido.  “A fábrica está nas mãos de vocês, por isso vocês têm que continuar lutando pelo bairro de Perus”, disse Seu Tião às crianças presentes na plateia. “Nós defendemos a ideia de repassar a história para os estudantes, crianças e adolescentes, para que eles possam se sensibilizar e fortalecer o Movimento que pede a reapropriação da fábrica. Além disso, esse tipo de atividade colabora com o estudo da história local para além do modelo padronizado da escola”, apontou também a coordenadora da Biblioteca, Elizabeth Pedrosa.

Teatrounnamed

Além das rodas de conversa, Perus recebeu importantes grupos de teatro na semana que se estendeu o Ato, como o Grupo Sobrevento, Cia Arthur Arnaldo, Buraco D’Oráculo, Grupo Tapa e, claro, o anfitrião Grupo Pandora. O palco do CEU Perus se encheu de moradores do bairro, que mesmo em baixo de chuva não deixaram de comparecer. “É importante que nós, educadores, incentivemos os alunos a participarem de quaisquer atos culturais que existam aqui em Perus, pois é uma forma de conscientizarmos as pessoas da realidade que vivem e de mostrar às pessoas quanta riqueza nós temos. Eu sempre incentivo os alunos, passei em todas as salas avisando que haveria teatro hoje”, contou o professor de Literatura da rede pública de Perus, Ailton Pereira.

Para a estudante Ariane Melo, 15, que participa de oficinas de teatro em uma das escolas da região, esta linguagem artística pode colaborar até mesmo para a vida profissional. “Eu acho o teatro interessante, pois te ajuda a ter contato maior com o público e até na sua carreira futuramente. Caso você tenha uma profissão que tenha que lidar mais com o público, [o teatro] tira a vergonha e te deixa mais preparado”, aponta.

Mateus Lima dos Santos, 16 anos, morador de perus concorda com a colega. “Eu moro há bastante tempo em Perus e nunca havia ido a uma peça. Acredito que é importante haver atrações desse tipo no bairro.”

Diversas manifestações artísticas

Também foram atrações do ato espetáculo “Raul Sem Conserto”, Mostra de Dança, ateliê de artes e o um sábado inteiro com o Hip Hop Naação, com a galera do grafite e break dance. Teve SarauD’Quilo na Biblioteca com lançamento do livro “Queixadas – por trás dos sete anos degreve”, com distribuição gratuita. A Praça Inácia Dias ficou mais bonita com o mosaico feito pela Manoela da Casa das Crioulas, batizando nosso palco de “Firmeza Permanente” em homenagem à luta dos Queixadas; teve também Coletivo Bagaceira, os Negosquilocos, e fechamento lindo com o Bloco Afro Ilú Oba De Min.

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O evento  intensificou a luta dos coletivos culturais já atuantes no bairro, mostrando ao poder público que aqui se faz arte de qualidade e, público é o que não falta. Que por mais que tenhamos poucos recursos ou espaços realmente adequados, fazemos bonito ainda com esse pouco. “É um bairro com uma efervescência cultural muito grande, com grupos de teatro, de dança, de música, artes plásticas, saraus e a fábrica aparece como um centro consolidador dessa cena cultural existente no bairro”, aponta Thalita, produtora e atriz do Grupo Pandora de Teatro.

12 anos do CEU Perus

O Ato coincidiu também com o 12º aniversário do CEU Perus, que até hoje é o único aparelho educacional-cultural de Perus. “Hoje é dia de festa, dia de aniversário do CEU Perus e, aqui no bairro, toda festa é uma comemoração da resistência e da luta. Afinal, todos nós em Perus fomos forjados na luta. Na luta dos traCAM02629balhadores da fábrica de cimento; na luta ambiental contra o pó de cimento; forjados na luta contra o lixão; forjados na luta diária de quem pega o trem lotado da CPTM. Forjados na luta por mais escola, mais saúde.

Conquistas: a construções de escolas e a construção de um CEU. Luta de resistência para que esse espaço se consolidasse e esse CEU não fosse abandonado, eaqui resistiram vários coletivos culturais, mesmo em um período em que todos os CEUSnão foram incentivados a continuar. Nós continuamos na luta para que esse CEU continuasse existindo e agora para que ele se mantenha. Esse CEU é nosso. Dar parabéns ao CEU Perus é dar parabéns à resistência do povo de Perus”, disse emocionado o gestor do CEU Perus e morador do bairro, Marcio Bezerra.

Cinema

Para reforçar o trabalho que vem sendo realizado na periferia de São Paulo, o Pandora trouxe até sua sede uma sessão de cinema com produções audiovisuais feitar por moradores da periferia e sobre a periferia, com animações, longa-metragem e curtas, além da publicação do livro “Queixadas – por trás dos sete anos de greve”, com distribuição gratuita de exemplares na Biblioteca Municipal Padre José de Anchieta.

Luta e Resistência

O Ato deste ano veio para selar a luta do Movimento pela Reapropriação, que em 2014 conseguiu uma grande vitória, após intensa reinvindicação do Movimento pela Reapropriação da Fábrica de Cimento de Perus em parceria com a Universidade Livre e Colaborativa, a antiga indústria e seus arredores foram inseridos como Território de Interesse da Cultura e da Paisagem (TICP) – Jaraguá-Perus no Plano Diretor Estratégico (PDE- Lei 16.050/2014) da capital paulista que, além do bairro inclui a Terra Indígena do Jaraguá.

Além disso, o documento prevê, ainda, um parque chamado “A Luta dos Queixadas” (nome dado aos sindicalistas da fábrica responsáveis por uma greve de sete anos) e reconhece como patrimônio outros pontos do bairro, como a Ferrovia Perus-Pirapora, com seu trem maria-fumaça; a Vila ‘fantasma’ Triângulo, onde só há uma família residindo; o Sindicato Queixada e a estação de trem Perus da CPTM, que data de 1867.

Mas um projeto que tramita desde junho deste ano na Câmara dos Vereadores pode inviabilizar o PDE. Trata-se da revisão da Lei de Parcelamento, Uso e Ocupação do Solo (Lei 13.885/2004). Popularmente conhecida como lei de zoneamento da cidade, ela regula o que deve ou não ser construído em São Paulo, seja por meio do Estado, construtoras, incorporadoras ou proprietários de imóveis. Desconsiderando aquilo que diz o PDE – onde o futuro Parque a Luta dos Queixadas é considerado Zona Especial de Interesse Social (ZEIS) – a revisão da lei de zoneamento coloca essa área como zona de uso misto, onde se permite a construção industrial ou habitacional, desconsiderando todo o valor histórico, social e cultural da área onde o prédio está situado.

“Após muita incidência política, conseguimos abranger, além do prédio da fábrica, um perímetro ao seu redor, que foi nomeado Parque a Luta dos Queixadas. Acreditamos que deve existir diálogo com os moradores locais, considerando a opinião da população sobre esse território, não apenas estudos técnicos” aponta Regina Bortotto, integrante do movimento e professora aposentada de Perus.

Desafios e próximos passos

De acordo com o Movimento da Fábrica, para a ideia do centro de cultura e memória do trabalhador e universidade tornar-se viável, é preciso agora, reivindicar mudanças na minuta da Lei de Parcelamento, Uso e Ocupação do Solo (LPUOS), mantendo o perímetro da Fábrica de Cimento Perus também como Zona de Proteção Ambiental, não como Zona Mista. “Diante desse ‘pré-projeto’ de Lei, em fase de audiências públicas, precisamos sensibilizar todos os envolvidos: vereadores, prefeito, secretários, empresas, instituições, além de diversos movimentos da sociedade civil, para que retornem às decisões aprovadas anteriormente no Plano Diretor de 2014, e avancem nas discussões de interesse da população” aponta, ainda, Regina.

Resultado do contato estabelecido com a Secretaria Municipal de Cultura está prevista a realização do Seminário “Fábrica e Patrimônio, Território da Cultura e Paisagem”, provavelmente em outubro, no Centro Cultural Vergueiro e a inclusão de Perus no roteiro da “Jornada do Patrimônio – reconheça seu patrimônio”, evento que acontecerá em dezembro deste ano. Para além da constante incidência política, o movimento mantém uma série de atividades junto às escolas locais e coletivos culturais. A Universidade Livre e Colaborativa, parte também da discussão, possui um grupo junto aos professores de escolas públicas para melhor entendimento do território, enquanto coletivos organizam todos os anos atos artísticos para celebrar a memória e continuar o debate em torno da desapropriação da fábrica.

Na mídia

E Perus, que sempre aparece no noticiário televisivo para falar de violência, ganhou nova cara na grande tela na semana do Ato. Foram três reportagens televisivas: na TV Gazeta, que contou a história da fábrica; no SPTV, da TV Globo, que mostrou como os moradores são atuantes nos processos de participação que incluem o território da fábrica; e também na TV dos Trabalhadores (TVT), que trouxe até mesmo crianças do bairro para falar da importância que a história tem para Perus e também matéria na TV Brasil e Guia da Folha de S.Paulo, na seção do Blog Mural. Pautar a grande imprensa por meio da mídia alternativa também é um passo importante na luta pela democratização da comunicação e da forma como a mídia fala das bordas da cidade. Sites como o Periferia em MovimentoAgenda da Periferia, Outras Palavras, Jornalistas Livres e Catraquinha também colaboraram com a propagação de nosso evento.

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Publicado em setembro 15, 2015, em Uncategorized e marcado como , , , , , , , , . Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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