Audiência Pública discute impacto de projeto habitacional nos arredores da Fábrica de Cimento de Perus

No próximo sábado (13/2), acontece uma audiência pública no CEU de Perus (região noroeste de São Paulo), das 10h às 12h, para discutir a possível vinda de um condomínio ao bairro (loteamento nomeado Nova Perus Dois, projeto habitacional proposto pelos proprietários da Fábrica de Cimento, a Família Abdalla); os moradores do bairro são contra o projeto, já que Perus não possui infraestrutura para receber mais gente e a fábrica é patrimônio da cidade. Organizado pelo Conresp (Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo), a audiência contará com a participação se secretários municipais e população do bairro. 

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Moradores reivindicam Fábrica de Cimento/Créditos: Jéssica Moreira

Tombada como patrimônio histórico da cidade de São Paulo e primeira do setor cimenteiro do Brasil, a Fábrica de Cimento, de certa forma, correrá grande risco se tal projeto habitacional for aprovado como está, pois o mesmo prevê a construção de cinco mil unidades de moradia, com prédios que variam de cinco a dezessete andares, no entorno da Fábrica de Cimento de Perus (região noroeste de SP), gerando grande impacto no bem tombado, mas principalmente no bairro.

O bairro de Perus, formado por dois distritos, com mais de 160 mil habitantes, não possui nenhuma infra-estrutura sequer para atender sua população atual, que dirá com a chegada de mais gente. Afinal, seus moradores sabem muito bem que as escolas ainda seguem precárias; quando ficam doentes, não há hospital. Sem falar da precariedade do transporte público, ou seja, ônibus ruins e trens obsoletos. Quanto ao lazer e cultura, então, nem pensar: não há teatro, cinema, clubes, ou seja, a qualidade de vida está muito aquém do desejado.

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Para nós, do Movimento pela reapropriação da Fábrica de Cimento Portland Perus, que luta, há décadas, por sua transformação em Centro de lazer e Cultura, a Fábrica carrega em si a potência do patrimônio e bem de interesse social e cultural, já afirmados inclusive no Plano Diretor Estratégico (PDE- Lei 16.050/2014) de São Paulo, onde a antiga indústria e seus arredores foram inseridos como Território de Interesse da Cultura e da Paisagem Jaraguá – Perus, pois inclui também as Terras Indígenas dos Guaranis, no Jaraguá.

Além disso, o documento prevê, ainda, um parque chamado A Luta dos Queixadas (nome dado aos sindicalistas da fábrica responsáveis por uma greve de sete anos) e reconhece como patrimônio outros pontos do bairro, como a Ferrovia Perus-Pirapora, com seu trem maria-fumaça; a Vila ‘fantasma’ Triângulo, onde só há uma família residindo; o Sindicato Queixada e a estação de trem Perus da CPTM, que data de 1867.

 

Leia mais: Fábrica de Cimento de Perus é tema de debate sobre patrimônio de SP

No entanto, outra grande preocupação está relacionada à Lei de Parcelamento, Uso e Ocupação do Solo (Lei 13.885/2004), a qual poderá inviabilizar o PDE. Popularmente conhecida como lei de zoneamento da cidade, ela regula o que deve ou não ser construído em São Paulo, seja por meio do Estado, construtoras, incorporadoras ou proprietários de imóveis.

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Desconsiderando aquilo que diz o PDE – onde o futuro Parque a Luta dos Queixadas é considerado zona especial de interesse social – a revisão da lei de zoneamento coloca essa área como zona de uso misto, onde se permite a construção industrial ou habitacional, desconsiderando todo o valor histórico, social e cultural da área onde o prédio está situado.

A importância imaterial da Fábrica

Neste sentido, aprendemos efetivamente, o significado do conceito de educar por meio dopatrimônio, materializado nas ruínas da Fábrica que continua produzindo encantamentocom suas linhas, formas e histórias; alimentando o sonho de ver preservado um pouco desse raro e magnífico exemplar da cultura arquitetônica industrial paulista desenvolvida nas primeiras décadas do Século XX, palco também de uma das mais importantes lutas do movimento operário e sindical de nossa história, conhecido pelos seus princípios de não violência ativa e de desobediência civil.

Patrimônio Histórico pelo DPH

Não podemos esquecer também que esses profundos laços afetivos e de memória que se estabeleceram entre os operários, suas famílias, os moradores do bairro de Perus e a Fábrica foram objeto de importante estudo conduzido pelo Departamento do Patrimônio Histórico no início da década de 1990 — coordenado pelas professoras Maria Célia Paoli e Ecléa Bosi — e constitui caso seminal dos estudos de memória social no Brasil.

Leia mais: E se lutas populares forem patrimônio histórico? 

Consciente da importância cultural da Fábrica e da necessidade de preservar este valioso exemplar da arquitetura industrial paulista, o CONPRESP promoveu o tombamento do conjunto em 1992 e o reafirmou em 2004, revisando-o, declarando como merecedores de proteção parcial (fachadas e volumetria) algumas das instalações e de proteção integral as demais.

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Esse ato político reconheceu e reconhece a importância da luta dos trabalhadores da Fábrica de Cimento Perus enquanto sujeitos escrevendo a história de seu tempo e lugar em universos marcados por disputas. Por isso, mais que nunca, a Fábrica serve de inspiração e ação para tantas escolas e coletivos culturais, entre outros, pois cada lembrança, cada objeto, cada artefato, cada cantinho de suas dependências possuem valor pedagógico e histórico por meio dos quais podemos “ressignificar” a vida e, quem sabe, construir novas relações entre as pessoas e o ambiente. (Leia o livro “Queixadas, por trás dos sete anos de greve)

Leia mais: 1º Caramanchão Cultural é marcado por emoção e recordações dos moradores de Perus

Diante desse modo de ver a Fábrica e lutando ao longo de décadas para preservá-la, achamos legítima a reivindicação de participar das conversas sobre seu futuro. Afinal, para nós, a Fábrica tem muito mais vocação para ser transformada em Centro de Memória, Cultura, Lazer e Conhecimento que, por exemplo, para ser utilizada como mero espaço de “paintball”, atividade descrita como violenta e que cada dia arruína e descaracteriza mais e mais. Aliás, cabe comentar, a quão “curiosa” forma de preservar e usar a Fábrica, bem tombado, ou seja, um grupo de “paintball” obtém autorização para exercer sua prática “esportiva, cultural” (?), enquanto o Movimento em defesa da mesma tem negada a autorização para que fosse feita a Trilha da Memória, roteiro inscrito na Jornada do Patrimônio, em 2015.

Denúncia: Fábrica usada como paintball mas fechada aos moradores

Essa recente denúncia, isso é, a utilização das dependências da Fábrica para a prática do “paintball”, foi feita de forma indignada por um dos moradores durante “Patrimônio em Debate: da fábrica à construção do território da cultura e paisagem Jaraguá – Perus”,no Centro Cultural São Paulo, evento organizado conjuntamente pelo DPH e peloMovimento da Fábrica, com mesa de debate e oficinas de cartografia, em 24/10/2015.

Por fim, a Fábrica, para nós, é um potencial para artes, cultura, conhecimento, lazer edesenvolvimento sustentável da região; por isso, nosso apelo para participar do debatesobre esse ou qualquer outro Projeto habitacional ou não que resulte em impactos para obem tombado, para seu entorno e, sobretudo, para o bairro, cuja vida já não é nada fácilpara quem nele vive.

Leia +:Em agosto, Ato Artístico Cimento Perus mobilizou população com muita arte e cultura

Sobre o Movimento pela Reapropriação da Fábrica de Cimento de Perus
Para a história não ser esquecida, há mais de 30 anos os moradores, ex-operários, viúvas e filhos de Queixadas lutam para transformar o espaço em um Centro de Lazer, Cultura e Memória do Trabalhador. Em 2013, essa causa ganhou novo sentido, com o Movimento pela Reapropriação da Fábrica de Cimento de Perus, que reúne os já ativos militantes e os novos simpatizantes da causa, incorporando nas reivindicações a construção de uma Universidade  Livre e Colaborativa e centros de pesquisa para agregar o conhecimento comunitário.https://movimentofabricaperus.wordpress.com/

Serviço
Evento: Audiência Pública sobre o condomínio “Nova Perus Dois”
Data: 13/02
Horário: das 10h às 12h
Local: CEU Perus/ Rua José Bernardo de Lorena, s/n, próximo à estação de trem de Perus (Linha 7-Rubi)
Imprensa: falar com Jéssica Moreira, jessicamoreira.mural@gmail.com (11 94067-6963).

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Publicado em fevereiro 3, 2016, em Uncategorized e marcado como , , , , , . Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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