PRIMEIRAS GREVES E O NASCIMENTO DOS QUEIXADAS

Como tudo começou – a greve de 46 dias

Antes do início da grande greve dos sete anos começar, o Sindicato dos Trabalhadores na Indústria do Cimento, Cal e Gesso de São Paulo consolidou sua capacidade de reivindicação e união, e ganhou evidencia nacional através da grande mídia, durante greve de 1958, conhecida como a Greve dos 46 dias.

Mas em 1958, quando tudo parecia tranquilo, os trabalhadores da fábrica recebem a notícia de um aumento salarial que só seria dado com o aumento do preço do cimento.  A notícia causou alvoroço entre os trabalhadores, que resolveram entrar em greve, para o aumento do salário em 40 % ou 30%, desde que os patrões se comprometessem a não aumentar o preço do produto.

Acervo Sindicato

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A paralização aconteceu por que os trabalhadores se negaram a receber o aumento anual de 30%, como todas as demais fábricas do setor. Na Perus, Abdalla acrescentaria o valor final do saco de cimento vendido como forma de cimento para não diminuir seus lucros.  A greve diferente ganhou simpatia e apoio popular em virtude do discurso apresentado pelos trabalhadores, que aceitariam o aumento padronizado apenas se o patrão não aumentasse o valor do cimento, caso contrário, reivindicavam um aumento de 40% em função da maior lucratividade da fábrica.

Foi por conta dessa primeira greve que o sindicato saiu fortalecido. Ganhou a confiança dos operários, que antes desconheciam sua própria força. Para entrar na fábrica, agora, não bastava apenas o aval do patrão. Antes de ser contratado, era necessário passar pelo crivo do sindicato.

Queixada que enfrenta Tubarão – nasce o apelido Queixadas

Após 46 dias, a greve teve seu fim com a assinatura de um documento oficial que garantia o reajuste de 40%. É nesse momento que surge o apelido Queixada, uma espécie de porco selvagem, remetendo à persistência do grupo. “É o único bicho que, quando se sente em perigo, se une em grupo, em manada, bate o queixo – daí o nome queixada -, enfrenta a onça ou o caçador; este tem e se esconder numa árvore, porque corre o risco de ser estraçalhado. Vocês tão dando um exemplo de unidade semelhante ao queixada. Queixada que enfrenta tubarão”, definiu o advogado Nelson Coutinho, durante uma assembleia sindical no cinema da cidade. O apelido ficou.

O tubarão, nesse caso, tinha nome, RG e endereço. Mais conhecido como J.J.Abadalla, ao assumir a gestão, a porca torceu o rabo e os trabalhadores começaram a botar a boca no trombone. Os homens uniram-se pelos mesmos motivos que muitos empregados cinquenta anos depois, ainda fazem reivindicações: melhores condições de trabalho e de salário.

E num período que se perseguia o comunismo com todas as garras, dado ao período de guerra fria que o mundo percorria, se queixar era um ato revolucionário e ser queixada era a revolução não-violenta daqueles homens vindos do interior, do nordeste ou doutro país.

Não parou por aí – lutas de 1959 a 1960

A partir da greve de 1958 os queixadas passam a firmar ainda mais sua luta. Em 1959, a gestão do Mau-Patrão demite 80 funcionários com mais de nove anos de casa. A demissão em massa queria evitar que os empregados alcançassem a estabilidade, já que naquele período somente trabalhadores estáveis (com mais de 10 anos de serviço) é que recebiam os direitos trabalhistas. Os queixadas tomaram a frente mais uma vez.  Se reuniram e decidiram dar o prazo de 48h para que a empresa pagasse todos os direitos dos funcionários, caso isso não acontecesse, os quase mil trabalhadores da Perus entrariam em greve novamente.

Acervo Sindicato

Acervo Sindicato

Antes dos dois dias dados pelo sindicato, Abdalla convoca trabalhadores vindos de outras fábricas para o funcionamento da empresa. Às 6h da manhã de 31 de agosto de 1959 a Portland Perus é paralisada novamente. Tão logo os queixadas se negam a trabalhar, o Mau patrão convoca caminhões de trabalhadores que, com escolta policial, entram na fábrica para furar a greve. No mesmo dia, o deputado Franco Montoro responde ao apelo de Mario e sai em defesa dos trabalhadores. Depois da negociação com o político, Abdalla aceita fazer o pagamento.

No meio tempo, os trabalhadores decidem que não querem mais o dinheiro, e sim a readmissão dos 79 (somente um preferiu receber seus direitos). A direção da fábrica aceita, então, a volta desses queixadas. A manifestação, novamente, ganha simpatia popular, pois os interesses dos envolvidos não eram financeiros, mas por condições dignas de trabalho.

Direitos trabalhistas – aqueles mesmos reivindicados pelos grevistas – eram quase inexistentes naqueles tempos. Mas isso não era exclusividade da fábrica. Sem capacetes, sem mascaras ou proteção alguma. Diariamente, os operários colocavam sua vida em risco entre os muros da fábrica.

Mas após a greve de 46 dias, a situação começou a melhorar.  “Naquele tempo, todo mundo queria trabalhar na fábrica. Principalmente depois da greve de 1958, que conseguiram os benefícios.

Direitos reivindicados

 A luta não parou. Algumas semanas depois da volta dos 79 trabalhadores, os queixadas passaram a reivindicar o chamado salário-família. O auxilio seria dado às mulheres donas de casa e aos filhos menores de 14 anos. Com medo de uma nova paralização, a Portland cede ao pedido e concedem a bolsa de Cr$ 1.000,00 (antigos) para as mulheres “do lar” e Cr$ 500,00 por filho de até 14 anos. Para que o benefício fosse recebido era necessário mostrar à direção as certidões de casamento e de nascimento.

Os sindicalistas também conseguiram de forma amigável o Prêmio-produção, incluído no acordo salarial de 1960. A bonificação por produção aumentou de forma expressiva a fabricação do cimento na indústria. Outra grande reivindicação dos queixadas foi o Fundo da Casa Própria. O benefício consistia na venda das terras ao redor da fábrica aos trabalhadores e o pagamento seria por meio da retenção de 5% dos salários dos compradores. A direção, no entanto, não cumpriu este acordo, abrindo caminho para greve dos sete anos.

No período que aconteceram todas essas manifestações, os queixadas chegaram a emprestar um milhão de cruzeiros (antigos) ao “mau patrão”, para completar a folha de pagamento e evitar uma nova greve.

(Texto retirado do livro “Queixadas – por três dos sete anos de greve”, escrito por Jéssica Moreira e Larissa Gould).

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