FECHAMENTO E TOMBAMENTO

Mesmo após a grande greve de 1962 as condições de trabalho da fábrica de cimento não melhoraram: atrasos de salários e insalubridade continuavam no cotidiano dos operários. Sem previsão para a desapropriação da Perus, os trabalhadores da década de 1980 continuaram o trabalho. Mesmo com os problemas que entravam, os operários aumentaram a produção de 75 mil toneladas em 1980 para 175 mil toneladas em meados de 1983. Os queixadas reivindicaram remuneração democrática, frente a atual produção, sem resposta da gestão, realizaram uma nova paralização em setembro de 1985.

No mesmo ano, a fábrica enfrentou um grande problema administrativo: a empresa Santa Rita, multinacional italiana e responsável pelo fornecimento de clínquer (matéria-prima para a produção do cimento), suspende o mesmo.

Créditos: Acervo Nelson Camargo

Créditos: Acervo Nelson Camargo

A situação, que já não era boa, piorou. Completamente endividada, a empresa encontrava dificuldades inclusive de venda. Como alternativa, os trabalhadores passaram a reivindicar a autogestão, eles pretendiam produzir cimento mais barato para torná-lo acessível aos trabalhadores e moradores de Perus e região, facilitando a construção de casas populares.

A proposta de auto-gestão não foi concretizada, por falta de argumentos que justificassem o processo. Sem compradores, a administração volta à gestão da Família Abdalla, que fecha as pedreiras de Cajamar, e passou a depender exclusivamente do clínquer (matéria-prima utilizada na produção do cimento) da Santa Rita. Com o fechamento das pedreiras, houve muitas demissões e maior insatisfação dos trabalhadores.

E chegaram, sim, a reivindicar a fábrica para eles. Acreditavam que podiam gerir aquele império de cal e cimento.  Já que, na prática, é sempre o peão que faz a roda girar, enquanto o chefe apenas muda a rotatividade.

A Fábrica funcionou até março de 1987, com pouca capacidade. As constantes greves, queda drástica da produção, má gestão e falta de matéria-prima, fizeram com que a fábrica não conseguisse recuperar seus antigos índices de fabricação, culminando em seu fechamento definitivo em 1987.

Tombamento

Em 19 de janeiro de 1987, o Governador da época, André Franco Montoro, tomba como patrimônio histórico do Estado a Estrada de Ferro Perus-Pirapora, por meio do Condephaat. A linha férrea é umas poucas com bitola estreita do Brasil, ou seja, que tem 60 cm de comprimento entre os trilhos.

No bairro de Perus, com ameaça de despejos, o sindicato procurou pela prefeita de São Paulo, Luiza Erundina. Ela, que já conhecia a luta dos queixadas, quando vereadora em 1984, ao participar da campanha “Cimento Barato para sair do Barraco”, se solidarizou com a causa.

Em encontro com Erundina, em setembro de 1991, na presença da professora Marilena Chauí, D. Angélico e mais quarenta trabalhadores, Erundina afirmou seu apoio e em 1992 todo o perímetro da fábrica de cimento de Perus foi tombado como patrimônio histórico da cidade de São Paulo, com “assinatura do Decreto de declaração de utilidade Pública de uma área de 23 alqueires e 16.770 m² de área construída, além das vilas operárias com mais de cem casas, e mais de vinte milhões de pés de eucalipto ao lado do Parque Anhanguera”.

Atualmente, moradores lutam por um Centro Cultural do Trabalhador onde funcionava a Fábrica.

(Esse texto faz parte do livro “Queixadas – por trás dos sete anos de greve”, escrito por Jéssica Moreira e Larissa Gould)

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: