O NASCIMENTO DA FÁBRICA

Parecido com tantos outros bairros das tantas periferias dessa São Paulo, a história de Perus tem início com a expansão do centro para as bordas que ainda não haviam sido desbravadas. Até 1867, Perus não passava de uma vila distante do Distrito da Freguesia do Ó. Com o boom do café, chegou às bandas de Perus a linha férrea São Paulo Railway, determinante na constituição do bairro. Hoje, ela continua de pé, mas como Estrada de Ferro Santos-Jundiaí, ou melhor, CPTM.

E o café, grão que fez São Paulo ficar conhecido por todos os cantos no século XX, foi também o abre-alas de novos espaços. Se antes a localidade só servia como parada para reabastecer as locomotivas com água para concluir sua jornada, o bairro passa a ter relevância populacional e comercial.  É nesse período que um tanto de famílias começa a chegar ao local.  A inauguração da linha de trem, em 1867, trazendo toda aquela gente, foi responsável também pela identidade do bairro.

Acervo Nelson Camargo

Acervo Nelson Camargo

Mas é uma pequena estrada de ferro, a Perus – Pirapora (EFPP), inaugurada em 1914, que tira o bairro de seu ostracismo e desperta o interesse de estrangeiros pelo espaço. Os trilhos nunca chegaram a Pirapora, mas o percurso era o suficiente para levar pedra calcária de Cajamar até Perus.

Trilhos abertos para a fábrica de cimento

Abertos os trilhos, abriu-se caminho também à construção da primeira fábrica de grande porte que se tem na história do Brasil: a Companhia de Cimento Portland Perus, mais conhecida como Fábrica de Cimento de Perus.

Os canadenses da Indústria Drysdale y Pease, de Montreal, que já trabalhavam no setor com sucesso, detectaram que naquele bairro distante poderia surgir um grande empreendimento. Firmaram parceria com dois moradores comerciantes de Perus – Sylvio de Campos e Arthur Costa Jambeiro – que foram, respectivamente, nomeados presidente e vice-presidente.

Fabricavam o cal em Cajamar, que chegava a Perus, por meio do trem Maria-Fumaça, e ia pra São Paulo nos trilhos da Railway.

Nasce a Companhia de Cimento Portland Perus

A Companhia é, então, inaugurada em 1924, pois data desta época o primeiro maquinário encomendado para a indústria.  Em abril de 1925, as plantas do local já estavam prontas. E é em 24 de abril de 1926 que a Fábrica produz a primeira leva de cimento.

A importância da Companhia fora ímpar no período que vai de 1026 a 1933, já que era a fonte principal para a matéria prima que iria alavancar prédios, casas, indústrias, tanto na cidade de São Paulo, quanto em outros estados.

Se antes os moradores se restringiam a uns poucos donos de terras, agora, o bairro começava a criar, de fato, uma população. Gente de todo lugar começou a chegar a Perus.  Portugueses, espanhóis, italianos, e também mineiros, nordestinos e pessoas de outros tantos interiores. Foi nessa mistura à brasileira que se traçou o perfil da população peruense.

FOTOS ANTIGAS 420

Acervo Nelson Camargo

Geralmente, os estrangeiros vinham para trabalhar como médicos, engenheiros, arquitetos e químicos. Famílias inteiras atravessaram o oceano, para então chegar a Perus. Já a gente simples e humilde de interior, vinha para o serviço pesado, pra carregar saco de cimento nas costas debaixo de sol ou de chuva.

Centenas de homens trabalhavam dia e noite para que, em 1927, a produção da fábrica chegasse a vinte e cinco mil toneladas. E noite e dia, aqui, não é força de expressão: é força braçal mesmo. De gente vinda de todos os cantos do Brasil e do mundo, para tentar fazer seu pé de meia na cidade grande.

Nesse tempo, o país inteiro chegava a consumir 496.582 toneladas de cimento. Desse todo, pelo menos cento e vinte e cinco mil vinham dos fornos de Perus.

Mas para além da produção, a fábrica até hoje é o elo que interliga a história de todas essas pessoas, sejam caipiras ou italianos, nordestinos ou

portugueses. Ali, todos se tornaram peruenses. Os peruenses da fábrica de cimento. E não foi apenas o fio condutor da trajetória dessas famílias, como também o cenário de reivindicações sociais a favor de direitos trabalhistas a todos esses homens e às famílias que ali se encontravam.

Toda a comunidade foi envolvida. Seja trabalhador ou não, todo mundo respirava, de todas as formas, cimento naquele bairro. Todo mundo vivia ao redor dessa matéria-prima, já que um saco de cimento pagava um trabalhador, que podia comprar seu arroz com feijão na vendinha. Direta ou indiretamente, todo mundo vivia ali por conta da fábrica.

(Esse texto faz parte do livro-reportagem “Queixadas – por trás dos sete anos de greve”, escrito pelas jornalistas, militantes e moradores da região: Jéssica Moreira e Larissa Gould).

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