A LUTA NÃO-VIOLENTA

O nascimento do Mau patrão

O ano de 1951 é um divisor de águas, tanto da fábrica, quanto da vida dos trabalhadores. Acontece uma troca de gestão na Companhia. Chega, então, José João Abdalla. Deputado federal pelo Partido Social Democrático (PSD) e Secretário do Trabalho sob o Governador Ademar de Barros de 1950 a 1951, J.J. Abdalla, como assim era conhecido, foi líder de um extenso império industrial, bancário e agropecuário. Mas é em 1951 que seus negócios alavancam ainda mais. Passa a ser sócio majoritário da indústria cimenteira, transformando fábrica, ferrovia, pedreiras de calcário, o Sítio Santa Fé, onde hoje é o Parque Anhanguera, e terras de Cajamar em parte integrante de suas riquezas.

Créditos: Acervo Nelson Camargo

Créditos: Acervo Nelson Camargo

Não demorou muito para J. J. Abdalla ser apelidado de Mau Patrão, principalmente por gerir a fábrica de forma desleixada e imprudente. Os equipamentos não tinham sequer manutenção adequada. Logo a fama de mau patrão se estendeu por todo o território paulista, já que o apelido lhe fora dado pelo jornal O Estado de S. Paulo, em matérias que envolviam a difícil relação entre Abdalla e os operários da Fábrica.

A falta de manutenção forçava, frequentemente, a paralisação de algumas etapas da produção do cimento em consequência da quebra de equipamentos. Assim, toda essa falta de zelo, tanto para com a fábrica, como com os empregados, foi abrindo caminho para a organização dos trabalhadores em sindicato para reivindicação dos direitos trabalhistas.  E, assim, nasce Os Queixadas.

Firmeza – Permanente: uma luta não violenta

Mahatma Gandhi e Martin Luther King já haviam obtido sucesso e visibilidade em boa parte de suas lutas utilizando o conceito gandhiano da Não-Violência quando este começou a ser usado na greve dos trabalhadores da fábrica em Perus. Mesmo que os mesmos não soubessem muito bem que a utilizavam no início.

O termo, quase autoexplicativo, enxergava na não violência a resolução dos conflitos. Passeatas, greves de fome e assembleias substituíam as formas tradicionais de luta, baseadas na violência tanto física, quanto a psicológica e a verbal.  Mas, no inicio de 1962, quando o expressivo grupo de sindicalistas de Perus optou pelo conflito pacifista para conseguir suas reivindicações, não imaginava como estava replicando a história de sucesso em terras tupiniquins. A greve, que duraria sete anos, foi umas das pioneiras do uso do conceito de Gandhi no Brasil.

E foi unindo a tática e a ideologia que aquele grupo de homens, formado essencialmente por gente simples dos interiores de todos os estados do Brasil, sem saber, utilizava em sua luta, o mesmo método pelo qual Mahatma Ghandi ficou conhecido mundialmente, ao conseguir a independência indiana, expulsando os ingleses da Índia, em 15 de agosto de 1947.  O mesmo método conduzido pelo político norte-americano, Martin Luther King, durante a luta pelos direitos civis dos norte-americanos afrodescendentes.

Créditos: Acervo Nelson Camargo

Créditos: Acervo Nelson Camargo

A Igreja foi uma constante na greve e também na vida dos trabalhadores. Foi o início das Comunidades Eclesiais de Base, as CEBs. E foi assim que começaram também a compreender melhor a Não-violência.  Católicos, evangélicos, anarquistas, comunistas, juntos deram pé àquela greve. A união faz a força nunca fez tanto sentido quanto na luta queixada.

Mas por que a luta não-violenta?

O presidente do sindicato na época,  João Breno, sabia que se fosse criado esse tipo de embate o grupo perderia por falta de recursos. Foi com a ajuda do advogado sindical Mario Carvalho de Jesus, que liderou a luta trabalhista na justiça, que Breno convenceu os operários de que esse era o melhor modo de vencerem a luta.

Quando o advogado Mario chegou ao sindicato de Perus, em meados de 1954, encontrou um cenário de desunião entre os trabalhadores do Grupo Abdalla. Parte deles estavam concentrados principalmente no bairro onde a fábrica se localizava, e em Cajamar, município vizinho que fornecia a pedra calcária para a fabricação do cimento, e sofriam com atrasos salariais e outras violações trabalhistas.

Com a chegada do advogado, um pequeno grupo de trabalhadores começou a se mobilizar em prol de seus direitos. Juntos, conseguiram uma série reivindicações para empregados e, assim, ganharam também a confiança dos demais. Esse período ficou marcado, principalmente, depois que os sindicalistas conseguiram barrar transferências de pessoal por motivos políticos: Abdalla tinha como intuito desmembrar e enfraquecer o sindicato.

O trabalho não foi fácil. De princípio, foi necessário que eles compreendessem que o uso da Não – violência não significava covardia ou designação, e sim uma nova forma de enfrentamento. Como o nome não foi muito aceito e causava certa antipatia por parte dos trabalhadores, os peruenses optaram por reinventar o nome e, aqui, a ideologia passou a ser chamada de Firmeza Permanente ou, então, de Não-violência Ativa.

Mario justificava a luta não violenta pela perseverança: “O importante não é a gente ser valente ou violento de vez em quando, mas firme o tempo todo, a vida toda, em todas as atitudes, quer na família, na fábrica ou na sociedade.” E em um período no qual as nossas leis não estavam ajustadas, esses homens representam os lutadores de direitos que nem existiam, conta seu Elias que não integrava o movimento.

Para os trabalhadores, mais que a função tática, a ideologia passou a ser uma arma fundamental da luta.  Além de os manterem unidos, o que foi determinante, ela trazia conhecimento para enfrentar seu opositor, o Mau-patrão J.J. Abdalla. A Firmeza Permanente utilizava três pilares de sustenTAção: a psicologia do conflito, baseada principalmente na observação e perspicácia; a perspectiva sociopolítica, que analisava o jogo político em questão, sem nunca utilizar das mesmas artimanhas do oponente e perspectiva teológica.

A não centralização da luta e a inexistência de um protagonista também eram algumas dos objetivos da Firmeza Permanente. Já que atores principais podem morrer ou se contradizer, comprometendo a continuidade da luta.

(Texto retirado do livro “Queixadas – por trás dos sete anos de greve”, escrito por Jéssica Moreira e Larissa Gould).

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